Imagens fortes: Fotos de Adriano da Nóbrega morto fortalecem suspeita de queima de arquivo - SAJ PUBLICIDADE

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domingo, 16 de fevereiro de 2020

Imagens fortes: Fotos de Adriano da Nóbrega morto fortalecem suspeita de queima de arquivo


O ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega era considerado peça-chave para o esclarecimento de dois casos emblemáticos: a expansão das milícias no Rio de Janeiro, muitas vezes com a ajuda clandestina de autoridades públicas, e a morte da ex-vereadora do psol, Mariele Franco. A suspeita é que a polícia do governo petista da Bahia, tenha executado o ex capitão por suspeitas que Mariele Franco teria ligações com milícias do Rio de Janeiro, assim os mesmos terem executada por acerto de contas.

No domingo 9 de fevereiro, depois de mais de um ano foragido, Adriano foi morto por policiais da Bahia, que descobriram o seu paradeiro com a ajuda da equipe de inteligência da polícia fluminense. Segundo a versão oficial, ele reagiu a uma ordem de prisão e morreu após uma troca de tiros. Sua família pretendia cremar seu corpo já na quarta-feira 12, mas a Justiça proibiu. Foi uma decisão providencial, já que emergiram severas dúvidas sobre os reais objetivos da operação policial, especialmente depois que se soube que dela participaram cerca de setenta homens equipados com fuzis, carabinas, pistolas, revólveres, espingardas, bombas de gás, drones, coletes e escudos à prova de bala — aparato que conseguiu cercar o ex-capitão em seu esconderijo, sozinho, seminu, supostamente armado apenas com uma pistola e, ainda assim, foi incapaz de prendê-­lo. Incompetência ou queima de arquivo?

VEJA teve acesso a imagens que revelam que Adriano da Nóbrega foi abatido com tiros disparados a curta distância. As imagens reforçam a acusação feita por sua esposa e por seu advogado de que ele foi executado — e de que as forças policiais nunca quiseram realmente prendê-lo. São fotografias de diversos ângulos, feitas logo depois da autópsia, que devem ajudar a revelar o que aconteceu nos minutos que se sucederam à entrada dos policiais no sítio onde o ex-capitão estava escondido, no município de Esplanada. De acordo com a Secretaria de Segurança da Bahia, Adriano, depois de reagir, foi abatido com dois tiros — um de carabina e outro de fuzil. Um dos projéteis atingiu a região do pescoço. O outro perfurou o tórax. 

Também de acordo com a polícia baiana, mesmo atingido e tendo perdido muito sangue, o ex-capitão ainda estava vivo quando foi levado para o hospital, a 8 quilômetros do local do confronto, onde chegou morto. As fotos obtidas pela reportagem sustentam parte dessa versão — mas apenas parte. Os disparos que mataram Adriano da Nóbrega foram feitos a curta distância. Além disso, as imagens revelam um ferimento na cabeça do ex-capitão, logo abaixo do queixo, queimaduras do lado esquerdo do peito e um corte na testa.

Veja as imagens abaixo

NO QUEIXO – O ferimento tem características de tiro disparado depois que a vítima já estava no chão 

NA TESTA – O corte pode ter sido provocado por uma coronhada

NO PEITO – A queimadura pode ter sido provocada pelo cano de uma arma longa e de grosso calibre


NO TÓRAX – Marcas sugerem que o disparo foi feito a menos de 40 centímetros de distância

Obtidas com exclusividade, as fotos que ilustram esta reportagem foram submetidas à avaliação do médico legista Malthus Fonseca Galvão, professor da Universidade de Brasília (UnB) e ex-diretor do Instituto Médico Legal do Distrito Federal. Ele debruçou-se sobre o material sem saber a identidade do morto. Depois de ressaltar que o ideal seria estudar o próprio corpo e ter conhecimento das armas usadas na operação policial, Galvão citou alguns pontos que lhe chamaram a atenção. 

O primeiro são as marcas vermelhas localizadas próximas da região do peito, chamadas pelos peritos de “tatuagem”, que indicariam um tiro a curta distância. “É um disparo a uma distância na qual a pólvora ainda tem energia cinética suficiente para adentrar o corpo. Então, foi um disparo a curta distância. O que é a curta distância? Depende da arma e da munição. Seriam 40 centímetros, no máximo, imaginando um revólver ou uma pistola. Mais que isso, não”, declarou Galvão. E acrescentou: “Pode ter sido uma troca de tiros? Pode. Pode ter sido uma execução? Pode. Qual é o mais provável? Com esse disparo tão próximo, o mais provável é que tenha sido uma execução. Mas tem de analisar com mais detalhes”.

O segundo ponto destacado pelo médico legista é uma marca que aparenta ser um tiro na região do pescoço. “Pode ter sido um disparo após a vítima ter caído no chão, porque a imagem me sugere ser de baixo para cima, da direita para a esquerda, em quase 45 graus. Esse disparo pode ser o que o povo chama de ‘confere’”, afirmou. Confere é o famoso tiro de misericórdia, efetuado quando não há a intenção de salvar a pessoa baleada. Galvão também destacou uma marca cilíndrica cravada no peito do corpo. 

“Tem muita chance de ser a boca de um cano longo após o disparo, quente, sendo encostada com bastante força por mais de uma vez. Nesse momento, ele estava vivo, com certeza, porque está vermelho em volta. É uma reação vital.” O professor observou ainda que o ferimento na cabeça poderia ser um corte provocado por um facão, um machado ou um choque com a quina de uma mesa. Pessoas próximas a Adriano da Nóbrega dizem que ele foi torturado. O machucado na cabeça, por exemplo, teria sido resultado de uma coronhada de pistola.

CAUSA MORTIS – Em laudo parcial divulgado pela Secretaria de Segurança da Bahia, perito diz não dispor de elementos “para afirmar ou negar” que houve emprego de tortura. A causa da morte foi “anemia aguda secundário à politraumatismo”

Sob a proteção do anonimato, outro especialista em medicina legal apontou como possível sinal de execução o disparo na lateral do corpo do ex-capitão do Bope, provavelmente feito quando ele estava com os braços erguidos, em sinal de rendição. Para esse perito, se tivesse havido troca de tiros, tal contusão teria de ser acompanhada de ferimentos também no braço esquerdo. 

Ele ainda observou que um dos disparos — no pescoço, abaixo da mandíbula — deve ter sido feito a curtíssima distância. Coisa de 15 centímetros. Assim como seu colega da UnB, o especialista ressalvou que o ideal seria fazer uma análise no corpo. Familiares e conhecidos de Adriano estão certos de que houve execução. “Ele me ligou e disse que não adiantaria se entregar porque ninguém queria a sua prisão, mas sim a sua morte”, disse a VEJA o advogado Paulo Emílio Catta Preta, que defendia o ex-capitão na Justiça. No domingo 2 de fevereiro, uma semana antes da ação policial que resultou na morte de Adriano da Nóbrega, a esposa dele, Júlia Mello Lotufo, declarou a VEJA que ele seria assassinado. “Meu marido foi envolvido numa conspiração armada pelo governador do Rio, Wilson Witzel, que queria matar o Adriano como queima de arquivo.”

Na quinta-feira, a polícia baiana divulgou uma parte do laudo do exame do corpo de Adriano, produzido pelo Departamento de Polícia Técnica de Alagoinhas, apontando que ele morreu às 8h10 em “consequência de disparos de arma de fogo”. De acordo com os peritos, foram encontradas marcas de dois tiros, que atingiram o pescoço, o pulmão e o coração, causando a morte do ex-capitão por “anemia aguda secundário à politraumatismo por instrumento de ação pérfuro-contundente”. Um dos quesitos do laudo chama a atenção. 

Pergunta-se se houve emprego, entre outras coisas, de tortura ou algum meio cruel que pudesse ter levado à morte Adriano da Nóbrega. O perito responde que “não tem como afirmar ou negar”. 

VEJA submeteu o documento a um especialista, que apontou uma série de lacunas técnicas. Além de ter descrições genéricas, o material carece de informações mais precisas, por exemplo, a descrição e a possível natureza da lesão na cabeça da vítima. Para o médico legista Malthus Fonseca Galvão, também é curioso o fato de não ter sido encontrado o segundo projétil, que poderia definir, a partir de ensaios balísticos, a distância precisa entre os policiais e o ex-capitão e a posição dos atiradores e da vítima no momento dos disparos.


APLAUSOS – Wilson Witzel: “Operação obteve o resultado que se esperava” Pablo Jacob/Agência O Globo

Fonte: Oitomeia

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